Ele controla o meu tempo, ele me dá seu tom e segura minhas estações dentro de num sei onde e seu peito é a caixa onde ele me guarda segura de mim e de tudo que sou... Mas nela não estou presa e dela não quero sair, só quero estar ali, quietinha e criança que sou protegida em seu abraço, estou segura, sendo livre, sendo eu... Calada, sinto seu cheiro e seus dedos traçando um caminho em minha pele, o beijo carinhoso em meus cabelos, toco seu rosto, nossas mãos brincam... E não há razão nenhuma pra tais gestos que não seja o simples fato de estarmos um com o outro... E ali eu tenho paz, ali sou feliz, não quero falar, nem discutir, nem definir, não preciso ser inteligente, nem engraçada, meus talentos não são importantes, nem meu verbo se faz necessário... Não preciso ser valente, nem a mais forte, meus conceitos se desmancham em beijos e carinhos gratos por ele nunca ter ido embora.
Peço por favor, nunca me solte! Não me tire da caixa amor, me proteja de mim!
Sem ele fico sem controle, sem ritmo e minhas estações todas desordenadas, os invernos assolam meu peito, negras nuvens derramando suas lágrimas de mim, os meus verões ensolarados demais com seus raios escapando por todos os lados sem que eu os possa conter... Sou o fruto do descontrole e da desordem, da insegurança... Admirada e festejada pelos bêbados e famintos de alegria que assim como eu, a encontram nas efemeridades da boemia, nos copos de cerveja e nos tragos de cigarro, e que voltam pra suas camas lamentáveis e vazios, porque vazios já estão os copos e frios, pois já se apagou a última brasa.
Peço por favor, nunca me solte! Não me tire da caixa amor, me proteja de mim!
Com ele sou adulta, e as coisas pequeninas me fazem sorrir e acalmar... Com ele meus sonhos nunca são solitários e fantásticos... com ele meus sonhos são simplórios e posso me ver ao pé da mesa rodeada da família que nunca tive, de pretinhas crianças a me sorrirem o sorriso que ele me traz, e me olhando com os mesmos olhos moles que ele me olha ao me beijar, que correm agarradas a barra de minhas roupas... Com ele sonho os sonhos de mulher comum, com direito aos almoços de domingo, com vovô, vovó, titios e titias a tagarelar sobre os feitos dos pequenos... Com ele posso ser o que quiser e tudo que quero ser é mulher e com todos os meus mulherismos, a mulher que sempre fui... Com ele tudo parece estar no seu devido lugar, mas a porta de minha casa se aproxima o veículo para e é hora do até logo, beijinho de despedida, chave na mão, tristeza no coração, corro de volta e arranco dele a surpresa e os beijos pra guardar em meus lábios por mais uma semana em que vou ver meu peito inchar de saudade.
Ahh, amor peço, por favor, nunca me solte! Não me tire da caixa, me proteja de mim!
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